04/05/2026, 12:00

Aleksandr Vat, da Ethplorer, diz que a altseason do Ethereum já aconteceu

Aleksandr Vat

Durante a Paris Blockchain Week, a equipe do BeInCrypto realizou uma entrevista exclusiva com Aleksandr Vat, Head de Desenvolvimento de Negócios da Ethplorer.io, para debater o lançamento da nova Aggregated Ethereum Rich List pela empresa.

A Ethplorer afirma que as listas tradicionais de maiores investidores em Ethereum se tornaram cada vez mais imprecisas porque classificam carteiras apenas pelo volume de ETH. O novo ranking considera o valor total em US$ mantido por cada endereço, incluindo ETH, tokens ERC-20 e stablecoins.

Foto fornecida por Aleksandr Vat

Foto fornecida por Aleksandr Vat

Segundo Vat, isso altera a análise sobre riqueza, liquidez e risco ligados ao Ethereum. Essa mudança conduz a uma das conclusões mais provocativas da Ethplorer: pode ser que a altseason já tenha ocorrido, mas nos balanços patrimoniais e não nos gráficos de preços.

A lista dos maiores investidores em Ethereum mudou

BeInCrypto: Durante a conferência, você apresentou o novo ranking do Ethereum para a comunidade. O que é a Aggregated Ethereum Rich List e por que a Ethplorer decidiu criá-la?

Aleksandr Vat: A Ethplorer refez a lista dos maiores investidores em Ethereum classificando os endereços não apenas por ETH, mas pelo valor total em US$. Isso inclui ETH, tokens ERC-20 e stablecoins.

O ranking agregado das carteiras é calculado com base no totalBalanceUsd, diferente dos rankings tradicionais, organizados por ethBalanceUsd. O objetivo é simples. O ranking baseado só em ETH não reflete mais o real poder econômico dentro do Ethereum.

BeInCrypto: Qual era o principal problema dos rankings baseados apenas em ETH?

Aleksandr Vat: Rankings considerando só o ETH ignoram a maior parte do capital. Hoje, cerca de 66% do valor está fora do ETH, principalmente em tokens e stablecoins. Isso significa que as listas baseadas em ETH apresentam uma visão distorcida de quem realmente controla liquidez e risco.

BeInCrypto: Qual foi o maior aprendizado ao refazer o ranking?

Aleksandr Vat: A maior transformação foi na hierarquia. Os mesmos 10 mil principais endereços concentram quase três vezes mais capital quando se inclui tokens. Muitos participantes que eram quase invisíveis tornaram-se centrais.

Ethereum está se tornando mais centrado em entidades

BeInCrypto: Vitalik Buterin imaginou o Ethereum como uma plataforma onde o código gerencia o valor. Essa visão já foi concretizada?

Aleksandr Vat: Cada vez mais, são sistemas, não indivíduos, que lideram. Smart contracts, exchanges e pools de liquidez controlam atualmente grande parte do capital. O Ethereum tornou-se menos centrado em grandes investidores individuais e mais focado em entidades.

Agora é possível medir isso. Nos rankings baseados em ETH, essa mudança era quase imperceptível. Ao considerarmos os saldos agregados, fica claro que os smart contracts, protocolos DeFi, bridges e pools de liquidez já controlam uma fatia expressiva do capital. Aproximadamente 28% do capital total pertence a esses sistemas.

Portanto, isso já não é apenas uma perspectiva, mas uma realidade estrutural observável.

“Altseason já aconteceu”

BeInCrypto: Você afirma que “a altseason já aconteceu.” O que exatamente quer dizer?

Aleksandr Vat: A altseason não sumiu. Ela passou dos gráficos de preço para os balanços patrimoniais.

Entre 2017 e 2021, o ETH concentrava a maior parte do valor econômico do Ethereum, enquanto tokens e stablecoins tinham participação secundária.

Esse cenário mudou. Entre 2022 e 2023, os saldos denominados em tokens igualaram o ETH em peso econômico.

No Aggregated Rating 2026 do Ethereum, o ETH deixou de ser predominante nas carteiras. As 10 mil principais carteiras possuíam cerca de US$ 342 bilhões em valor total no fim de março de 2026. Desse total, US$ 116,5 bilhões estavam em ETH, cerca de 34%, enquanto outros 66% pertenciam a tokens.

BeInCrypto: Por que o mercado não percebeu isso?

Aleksandr Vat: Porque o foco das pessoas está nos preços, não na composição dos saldos. Enquanto os gráficos pareciam estáveis, o capital estava discretamente migrando entre tokens, stablecoins e smart contracts.

BeInCrypto: Estamos diante de um ciclo de mercado diferente agora?

Aleksandr Vat: Sim. O mercado está passando da descoberta de preço para a identificação de poder. A principal questão deixou de ser “Qual é o preço?” e passou a ser “Quem controla a liquidez e o risco?”

O que muda para investidores e analistas?

BeInCrypto: O que isso proporciona para investidores, na prática?

Aleksandr Vat: Altera a forma de avaliar riscos. Em vez de observar só o preço ou o market cap, é preciso analisar a composição dos saldos. Trata-se de capital externo real, ou de tokens autoemitidos?

BeInCrypto: Como os analistas devem rever suas metodologias utilizando esses dados?

Aleksandr Vat: É necessário sair das narrativas e se aprofundar na análise da composição. Isso significa observar saldos agregados, origens do capital e dependências, não ficando restrito ao TVL ou ao preço dos tokens.

BeInCrypto: Essa abordagem muda a interpretação sobre TVL e market cap?

Aleksandr Vat: Sim. Ambos os indicadores podem ser distorcidos por tokens emissos pelo próprio projeto. Sem compreender a composição do saldo, é fácil superestimar o real poder econômico.

O índice da “impressora de dinheiro”

BeInCrypto: O que é o Printing-Press Index e por que você o criou?

Aleksandr Vat: O Printing-Press Index, ou PPI, mede quanto do portfólio é composto pelo próprio token do projeto. Ele ajuda a diferenciar o capital real do valor gerado internamente.

A fórmula é simples:

O PPI corresponde ao valor em US$ dos tokens próprios do projeto dividido pelo valor total em US$ dos tokens detidos pelo projeto. Ou seja, mostra a fatia do token próprio no portfólio do projeto.

BeInCrypto: O que o PPI revelou sobre DeFi, exchanges centralizadas, bridges e redes layer 2?

Aleksandr Vat: O setor DeFi demonstra uma dependência expressivamente maior de tokens próprios em comparação com players centralizados. Em média, é aproximadamente o dobro, 14,7% contra 6,9%.

Bridges e redes layer 2 apresentam PPI ainda mais elevado, cerca de 34,8%. Parte disso é estrutural, pois frequentemente exigem tokens nativos para liquidez e staking. Contudo, isso também transfere risco devido à dependência do preço desses tokens.

BeInCrypto: Em que ponto o PPI passa a ser arriscado?

Aleksandr Vat: Abaixo de cerca de 20%, é considerado normal. Acima de 40% a 50%, o sistema se torna frágil e suscetível a dinâmicas de colapso reflexivo.

BeInCrypto: Você pode dar exemplos práticos de risco elevado de PPI?

Aleksandr Vat: UST-LUNA é um caso extremo. O sistema era quase totalmente respaldado pelo próprio token, o que resultou em uma espiral descendente.

A FTX é outro exemplo. Mesmo uma exposição de cerca de 40% ao FTT bastou para provocar o colapso sob pressão. Isso mostra que PPI alto não precisa ser extremo para se tornar perigoso.

O ETH ainda é relevante, mas já não representa todo o cenário

BeInCrypto: O ETH continua sendo o núcleo da economia do Ethereum?

Aleksandr Vat: O ETH segue relevante, mas não é mais o principal meio de reserva de valor nos grandes portfólios. Apenas cerca de 34% do capital dos principais investidores está em ETH. Os outros 66% estão alocados em outros tokens.

BeInCrypto: O que mais te surpreendeu em relação à dinâmica dos endereços?

Aleksandr Vat: A mudança de geração. A maioria dos grandes endereços no ranking agregado é consideravelmente mais nova, refletindo a entrada de capital via DeFi e outros tokens.

No ranking principal de ETH, aproximadamente um terço das carteiras tem mais de cinco anos. Já no ranking agregado, quase 60% têm menos de dois anos.

Os endereços agregados também apresentam cerca de 25% mais atividade. Eles mostram alterações de saldo e maior volatilidade, pois refletem fluxos reais de liquidez em vez da mera retenção passiva de ETH.

Filtrando riqueza falsa em tokens

BeInCrypto: Como vocês lidam com saldos de tokens falsos ou inflados?

Aleksandr Vat: Aplicamos filtros de liquidez. Isso significa excluir saldos que não poderiam ser realmente vendidos sem impactar o mercado.

Sem filtragem, tokens de pouca liquidez podem inflar artificialmente os rankings e distorcer o poder econômico real. Em cripto, é relativamente simples criar um token, definir um preço por meio de negociações pouco líquidas e gerar a percepção de grandes saldos.

Para evitar isso, usamos um conjunto de validações. Analisamos o nível mínimo de atividade de negociação, considerando dados atuais e históricos. Verificamos a consistência da capitalização de mercado e avaliamos se um saldo poderia realmente ser liquidado no mercado.

A lógica é clara: se não for possível vender toda a posição em cerca de duas semanas, esse saldo não representa capital líquido real e não deve distorcer o ranking.

O problema do contrato de depósito Beacon

BeInCrypto: Antes desta entrevista, analisamos rankings tradicionais dos maiores endereços em Ethereum, de plataformas reconhecidas. Um ponto chamou a atenção. O contrato de depósito Beacon aparenta deter quase 70% da rede Ethereum. Na prática, estamos olhando para apenas 30% do mercado?

Aleksandr Vat: Esse é justamente o problema dos rankings focados só em ETH. Eles criam uma visão equivocada.

O contrato Beacon não é um investidor real. Trata-se de um registro técnico de depósitos para staking. O ETH ali não é controlado por uma única entidade e sequer pode ser retirado desse endereço.

Quando aparece como “70% do mercado”, cerca de 83 milhões de ETH, não representa poder econômico real nem comportamento de mercado. É apenas um valor técnico.

Considerando o cenário real, o staking ativo está mais perto de 39 milhões de ETH. Ao adotar uma visão agregada, incluindo tokens líquidos e stablecoins, o staking ativo responde por pouco mais de 10% do capital total do ecossistema.

Portanto, não estamos analisando só 30% do mercado. Aproximadamente 10% está em staking. Os outros 90% é onde o mercado efetivamente opera, com capital circulando, negociando e se redistribuindo pelo ecossistema.

A construção do ranking

BeInCrypto: Quanto tempo levou o desenvolvimento desse ranking?

Aleksandr Vat: Não há um cronograma único porque não foi construído como projeto isolado. A Ethplorer processa há anos dados em nível de token, com foco em valorização em US$ e exclusão de ativos de baixa qualidade.

Em determinado momento, a qualidade e abrangência dos dados tornaram possível construir um ranking agregado completo. Foi então que o transformamos em um produto estruturado.

BeInCrypto: Qual foi a etapa mais desafiadora?

Aleksandr Vat: Limpar os dados, especialmente no tratamento de tokens spam, inconsistências de preço e na agregação de entidades.

BeInCrypto: Como foi o retorno recebido da comunidade?

Aleksandr Vat: Houve expressivo interesse e debate, principalmente porque o ranking desafia premissas amplamente aceitas sobre o Ethereum.

BeInCrypto: Você debateu esse tema com profissionais do setor durante a Paris Blockchain Week?

Aleksandr Vat: Sim, e as reações foram diversas, variando entre curiosidade e ceticismo. Isso é esperado quando se apresenta uma nova abordagem analítica.

Conclusão final

BeInCrypto: Qual é o principal aprendizado da sua pesquisa?

Aleksandr Vat: A lista dos grandes investidores do Ethereum não está mais relacionada apenas à riqueza, mas sim aos fluxos de capital e à distribuição de riscos.

BeInCrypto: Se precisasse resumir a mudança em uma frase?Aleksandr Vat: Passamos de acompanhar saldos para compreender a estrutura de capital.

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