15/05/2026, 16:30

IPO da SpaceX avaliada em US$ 1,75 trilhão amplia risco centralizador de Elon Musk

O prospecto do IPO da SpaceX toma uma medida incomum: retira dos investidores públicos o direito de substituir o diretor executivo. O mesmo documento alerta que a saída dele pode ser uma questão existencial.

A contradição é estrutural, não acidental. O S-1 solicita aos mercados que financiem um fundador único e que aceitem um pacote de remuneração cujos gatilhos existem apenas em projeção.

O IPO da SpaceX estabelece risco concentrado em único ponto

Musk detém cerca de 42,5% do capital da SpaceX, mas possui 83,8% do poder de voto por meio de ações Classe B com direito a voto ampliado. O S-1 declara que a remoção dele dos cargos exige votação das ações Classe B, as quais ele controla totalmente.

O professor de Direito de Harvard, Lucian Bebchuk, classificou a estrutura como “incomum”. Normalmente, conselhos mantêm autoridade formal para demitir executivos. Neste modelo, essa autoridade fica concentrada no bloco de votação de Musk, funcionando como um autoveto.

Os documentos apontam a saída de Musk como um risco descrito em várias páginas, citando seus compromissos em Tesla, xAI, X, Neuralink e The Boring Company.

Não há estrutura formal de sucessão definida, nem qualquer vice preparado para assumir.

Feudalismo corporativo retorna aos mercados públicos

A incorporação no Texas, a arbitragem obrigatória e a isenção de empresa controlada são acompanhadas de um limite mínimo de 3% ou US$ 1 milhão para propostas de acionistas. O próprio prospecto afirma que a influência dos acionistas públicos será limitada ou eliminada.

Representantes de fundos de pensão já manifestaram oposição. CalPERS, o controlador do Estado de Nova York e o controlador da cidade de Nova York assinaram uma carta conjunta.

Eles afirmam que a estrutura liderada por Musk representa um afastamento dos padrões aceitos para companhias abertas.

A SpaceX defende que a estrutura protege objetivos de longo prazo contra pressões imediatistas dos acionistas.

No entanto, essa justificativa não aborda a questão da remoção de executivos. Travamentos existentes em empresas como Meta e Alphabet parecem modestos em comparação.

Bloqueios de fundadores na SpaceX, Meta e Alphabet
Bloqueios de fundadores na SpaceX, Meta e Alphabet

Meta de US$ 7,5 trilhões em Marte não é avaliação

A principal parcela de remuneração pode conceder para Musk até 200 milhões de ações Classe B, com aquisição restrita ao alcance de capitalização de mercado de US$ 7,5 trilhões pela SpaceX. O mesmo gatilho exige ainda uma colônia em Marte com pelo menos um milhão de residentes.

O patamar de US$ 7,5 trilhões supera o valor somado de mercado de Apple, Microsoft e Saudi Aramco. A exigência relacionada a Marte não tem precedentes, infraestrutura projetada ou diretrizes regulatórias espaciais.

Nenhum desses parâmetros corresponde a métodos usuais de avaliação.

Outra parcela permite até 60,4 milhões de ações para centros de dados orbitais com 100 terawatts de capacidade. A premiação lembra a disputa terrestre de IA da xAI. O S-1 reconhece que operações desse tipo podem não ser viáveis comercialmente.

Esse é o custo de uma governança concentrada em um só ponto aliada a um modelo de remuneração especulativo. Investidores são convidados a financiar uma companhia sobre a qual não exercem influência nem podem atribuir valor aos marcos definidos.

A única pessoa que pode fracassar na missão é justamente quem tem o poder de defini-la.

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